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A sensação de estar acima do jogo

Oct 9
6 min read

A minoria que vira o jogo


Existe uma convicção difundida de que, num país dividido ao meio, não há espaço para mais nada. Quem tenta se colocar fora dos dois polos é tratado como ingênuo ou como voto perdido. A ciência de redes oferece uma leitura menos fatalista. Em 2011, pesquisadores do Rensselaer Polytechnic Institute mostraram, em simulações, que uma minoria de cerca de 10% pode virar a opinião de uma população inteira¹. A condição não é ser grande. É ser inabalável.


Eu já vi esse fenômeno fora das simulações. Um dos projetos nos quais trabalhei, a fusão da Suzano com a Fibria, é um bom exemplo para ilustrar do que falo aqui. O ambiente era de baixa confiança, natural em um grupo que emergia da junção de competidoras. A Análise de Rede Organizacional mostrou que as divergências culturais entre as duas origens tinham se convertido em estrutura: a empresa funcionava como um arquipélago de silos, cada antiga cultura uma ilha. Era, em escala corporativa, uma rede polarizada.


A virada não veio do topo nem de um dos lados. Veio de um grupo pequeno de influenciadores da camada média de gestão, que não eram necessariamente os chefes formais, mas as pessoas a quem os outros recorriam para conselhos, informações e apoio.


Quando apresentamos o diagnóstico, eles não se surpreenderam. Já sabiam exatamente do que se tratava. Faltavam espaço e método. Ao fim de um ano de trabalho auto-gerido, o mapa que antes mostrava ilhas isoladas revelava um continente conectado.


O que mais me marcou nesse processo foi um detalhe que muda a forma de pensar a chamada terceira via. A minoria que transformou a Suzano não era um terceiro polo disputando espaço com os outros dois. Era feita de pontes, pessoas com credibilidade dos dois lados e dispostas a se comprometer com a integração. E é justamente onde essas pontes seriam mais necessárias, nos lugares em que a comunidade está dividida, que a abstenção mais cresceu em 2026.


Um quarto do eleitorado fora da escolha


No primeiro turno de 2026, 33,5 milhões de eleitores não foram às urnas, 21,08% do eleitorado apto, a maior abstenção numa eleição presidencial desde 1998. Somados os votos brancos e nulos, quase 40 milhões de brasileiros, um quarto do eleitorado, não escolheram nenhum candidato. Para dimensionar, a diferença entre os dois primeiros colocados foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos.


À primeira vista, pouco mudou em relação a 2022, quando a abstenção foi de 20,95%. Mas a média nacional esconde dois movimentos opostos. Nos municípios em que os dois candidatos mais votados chegaram praticamente empatados, a ausência cresceu 1,2 ponto percentual. Onde um deles venceu com folga, ela recuou 1,8 ponto. Entre esses extremos, a variação desce de forma contínua, como mostra o box ao lado. O eleitor se retirou justamente onde a comunidade estava mais dividida.



Quando a oposição deixa de equilibrar


Nada disso significa que a divisão seja, em si, o problema. A dualidade acompanha a organização humana desde sempre, e do ponto de vista sistêmico ela não é uma falha. Forças opostas são o que mantém um sistema vivo: cada uma contém o excesso da outra, e o equilíbrio nasce dessa tensão permanente, como num organismo que regula a própria temperatura. Mas essa regulação depende de que os polos estejam acoplados, de que o que acontece num lado chegue ao outro e o modifique. Quando esse acoplamento se rompe, cada lado passa a reagir ao outro apenas intensificando a própria posição, num ciclo que a antropologia chama de cismogênese². A oposição deixa de equilibrar e passa a escalar.


As pontes se retiram


A ciência política conhece esse mecanismo há duas décadas: pessoas inseridas em redes com visões cruzadas, com amigos, família e colegas dos dois lados, participam menos da política³. Em termos de rede, são as pontes, o canal por onde um polo alcança o outro. Para elas, cada posicionamento tem um custo social que quem vive dentro de um só lado nunca paga. Na Suzano, as pontes encontraram espaço e método para transformar essa posição em influência. Num país polarizado, sem espaço nem método, a saída mais barata para quem está na fronteira é se retirar.


Um potencial sem núcleo


Resta saber o que acontece com quem sai. Estaria se formando, entre os que se retiram, um novo subsistema dentro do próprio sistema, ainda sem forma? A teoria dos sistemas complexos mostra que sistemas afastados do equilíbrio podem dar origem a uma nova ordem, mas só quando uma flutuação encontra um núcleo capaz de amplificá-la⁴. Em linguagem de redes, um subsistema existe quando seus elementos se conectam entre si.


Os 40 milhões que não escolheram ninguém compartilham uma condição, mas não compartilham vínculos. Enquanto a força que os move for o individualismo, cada um saindo sozinho e por razões próprias, eles são um agregado, não um sistema. Um potencial sem núcleo. E o núcleo, como mostraram os pesquisadores do Rensselaer, é exatamente o que uma minoria comprometida pode oferecer.


Ninguém está fora do jogo


É raro alguém viver a própria retirada como desistência. Ela costuma vir acompanhada de uma explicação que soa como lucidez: os dois lados são iguais, não me presto a isso, prefiro ficar fora dessa briga. Todos nós já sentimos o alívio de não ter que escolher, e ele não é desprezível. Num ambiente em que cada posição custa caro, ficar de fora parece a forma mais digna de preservar a própria integridade.


O problema é que, numa rede, não existe lugar fora. Quem se retira não desaparece da estrutura, apenas desfaz um vínculo. E os vínculos que se desfazem primeiro são justamente os que ligavam um polo ao outro, porque é ali que o custo de estar presente é mais alto. Cada ponte que se recolhe deixa os dois lados um pouco mais livres para falar só consigo mesmos, e um pouco mais livres para escalar.


Por isso a sensação de estar acima do jogo é, ela mesma, uma posição dentro dele. Não uma posição neutra, mas uma com efeito previsível: ela alimenta exatamente a polarização que diz recusar. A retirada de quem está na fronteira não protege o sistema da divisão. Retira dele o mecanismo que poderia equilibrá-la.


Pontes presentes


Na Suzano, as pontes não mudaram a rede porque eram muitas. Mudaram porque encontraram espaço e método para agir sem carregar sozinhas o custo de estar entre dois lados. É isso que a ciência de redes autoriza chamar de terceira via: não um candidato, mas um compromisso com o vínculo entre quem pensa diferente.


O país tem pontes aos milhões. Estão nas famílias que dividem a mesa no domingo, nas equipes de trabalho, nas igrejas, nos grupos de bairro. A questão é o que cada uma faz com essa posição. Votar é o gesto mínimo. O gesto que muda a rede é outro: sustentar a conversa com o lado de lá quando seria mais confortável se calar, e criar, onde for possível, lugares em que essa conversa custe menos.


Talvez seja aqui que a ciência de redes encontra algo mais antigo do que ela. Nenhum mapa muda sem que cada pessoa perceba onde está. Na Suzano, o momento decisivo não foi a apresentação do diagnóstico, foi quando os influenciadores reconheceram nele a própria experiência e decidiram agir a partir dela. Autoconsciência, nesse sentido, não é olhar para dentro e se afastar do mundo. É enxergar com honestidade a própria posição na rede, inclusive quando a lucidez que nos tranquiliza é só uma forma elegante de evitar o custo de estar presente.


Autorresponsabilidade é o passo seguinte: aceitar que, numa rede, não existe gesto sem efeito. Votar, anular, faltar, calar ou sustentar uma conversa difícil são escolhas que redesenham, ainda que um pouco, a estrutura em que vivemos juntos. Por isso escrevo não sobre o segundo turno, mas sobre o futuro do marco civilizatório, que depende menos de quem vence uma eleição e mais dos vínculos que sobrevivem a ela. Não controlamos o país. Respondemos pelo lugar que ocupamos nele. A minoria que vira o jogo não precisa ser grande. Precisa estar presente.





Notas

¹ Xie, J. et al. Social consensus through the influence of committed minorities. Physical Review E, 2011. Ver também Centola, D. et al. Experimental evidence for tipping points in social convention. Science, 2018.

² Bateson, G. Naven. Cambridge University Press, 1936.

³ Mutz, D. Hearing the Other Side: Deliberative versus Participatory Democracy. Cambridge University Press, 2006.

⁴ Prigogine, I. e Stengers, I. A Nova Aliança. Editora UnB, 1984.

 
 
 

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